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A China aposta em petróleo enquanto lidera as renováveis. E o Brasil?

Thelmo Tonini (Amerikano)
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 A China aposta em petróleo enquanto lidera as renováveis. E o Brasil?

Pequim amplia petróleo, gás e infraestrutura ao mesmo tempo em que domina a expansão mundial das renováveis. No Brasil, Jean Paul Prates vem defendendo há anos uma ideia semelhante: transição energética não precisa significar abandono imediato do petróleo.

A China está mostrando que, pelo menos para uma das maiores potências do planeta, a estratégia é bem mais complexa.

Pequim lidera a expansão mundial das energias renováveis e, ao mesmo tempo, continua tratando petróleo e gás como elementos estratégicos para sua segurança energética.

E isso levanta uma pergunta que interessa diretamente ao Brasil:

“Precisamos realmente escolher entre ser uma potência do petróleo ou uma potência das energias renováveis?”

Ou podemos ser as duas coisas?


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A China não está abandonando o petróleo

A estratégia chinesa ganhou um novo capítulo em agosto de 2026.

O país estabeleceu novas metas para sua infraestrutura energética até 2030, dentro de seu 15º Plano Quinquenal para petróleo e gás.

Entre os objetivos estão expansão da rede de dutos, aumento da capacidade de armazenamento de gás, modernização e digitalização da infraestrutura e integração das fontes renováveis ao sistema energético.

O objetivo central é evidente:


“Segurança energética.”


A China quer diminuir vulnerabilidades externas e garantir energia suficiente para sustentar sua gigantesca indústria e sua economia.

Mas aqui está o ponto mais interessante:


“Ela está fazendo isso sem abandonar sua revolução renovável.”


Ao final de 2025, a capacidade chinesa de geração considerada limpa já havia ultrapassado a capacidade fóssil instalada no país.

Ou seja, não estamos falando de uma potência que escolheu petróleo em vez de renováveis.

Estamos falando de uma potência que está investindo pesadamente nos dois lados da equação energética.


E o Brasil?


O Brasil possui uma condição extremamente particular.

Somos uma potência petrolífera.

Temos o pré-sal, algumas das maiores produtividades de poços offshore do planeta, décadas de conhecimento acumulado em águas profundas e ultraprofundas e novas fronteiras exploratórias sendo avaliadas.

Mas também somos uma potência renovável.

Segundo as estatísticas mais recentes da IRENA, referentes a 2025, o Brasil está entre os quatro maiores países do planeta em capacidade instalada de energia renovável, atrás de China, Estados Unidos e Índia.

E nossa vantagem vai muito além de simplesmente instalar painéis solares.


O Brasil possui:

hidrelétricas;

eólica onshore;

enorme potencial para eólica offshore;

energia solar;

etanol;

biodiesel;

biomassa;

potencial para hidrogênio de baixa emissão;

petróleo;

gás natural;

uma enorme cadeia industrial offshore;

portos;

engenharia;

universidades;

centros de pesquisa;

e profissionais especializados.


Pouquíssimos países possuem tantas alternativas energéticas dentro do mesmo território.

É justamente aqui que entra uma discussão que Jean Paul Prates vem levantando há anos.



“Precisamos do petróleo para investir em energia renovável”


Em outubro de 2023, quando ainda presidia a Petrobras, Jean Paul Prates deu uma entrevista ao jornal A TARDE.

A manchete sintetizou sua visão:


“Precisamos do petróleo para investir em energia renovável.”


A ideia defendida por Prates era que a Petrobras poderia continuar produzindo petróleo — especialmente petróleo competitivo e de menor intensidade de carbono — enquanto utilizava sua capacidade financeira, tecnológica e industrial para construir sua transformação em uma empresa cada vez mais diversificada em energia.

Não significava abandonar o petróleo.

Significava utilizar a riqueza produzida por ele para ajudar a construir o próximo ciclo energético.



“Coexistência do petróleo e das fontes renováveis”


Essa posição não apareceu apenas naquela entrevista.

Em março de 2023, pouco depois de assumir a Petrobras, Prates publicou um artigo defendendo que o futuro seria construído sob uma lógica de:

“Coexistência do petróleo e das fontes renováveis”.


A Petrobras, segundo aquela visão, continuaria atendendo à demanda brasileira por petróleo, gás e combustíveis enquanto intensificaria seus investimentos em energias renováveis.

É uma diferença conceitual importante.

A transição deixa de ser vista como um interruptor — desligamos petróleo e ligamos renováveis — e passa a ser tratada como um processo industrial que pode levar décadas.



O petróleo e gás como “peça-chave” da transição


Um ano depois, em maio de 2024, Prates levou essa discussão para um dos principais palcos da indústria offshore mundial.

Durante a Offshore Technology Conference, a OTC, em Houston, afirmou que o setor de petróleo e gás seria “peça-chave” para estruturar e impulsionar a transição energética em grande escala.

A lógica é relativamente simples.

Quem possui algumas das maiores capacidades de engenharia, capital e execução de projetos energéticos do mundo?

As grandes empresas de petróleo.

Quem possui experiência em grandes projetos offshore?

Essas mesmas empresas.

Quem domina logística marítima, geologia, reservatórios, construção submarina, gasodutos, plataformas e operações complexas em alto-mar?

Novamente, essa indústria.

Portanto, em vez de simplesmente desmontar toda essa capacidade, uma alternativa seria utilizá-la também na construção do novo sistema energético.


“Sem competição entre tecnologias”


Talvez uma das declarações mais interessantes de Prates tenha ocorrido durante a CERAWeek de 2024, também em Houston.

Na ocasião, ele defendeu que o objetivo deveria ser reduzir emissões “sem criar uma competição artificial entre tecnologias”.

Cada região deveria procurar a melhor combinação de fontes de acordo com suas próprias características.

Essa ideia merece atenção especial no Brasil.

Porque nossa matriz não é igual à chinesa.

Não é igual à americana.

Não é igual à europeia.


O Brasil possui uma combinação de recursos naturais que poucos países têm.

Por que, então, copiar integralmente o modelo energético de outro país?



A China parece estar fazendo exatamente isso


É aqui que as duas histórias começam a se encontrar.

Não significa que a China esteja seguindo Jean Paul Prates.

E seria incorreto estabelecer essa relação.

Mas existe uma “semelhança conceitual interessante” entre o pensamento defendido por Prates e aquilo que hoje observamos na estratégia energética chinesa.

A China não parece perguntar:

“Petróleo ou renováveis?”

A pergunta parece ser:

“Quais fontes precisamos para garantir energia, segurança, desenvolvimento industrial e competitividade nas próximas décadas?”

E a resposta inclui praticamente tudo.

Solar.

Eólica.

Baterias.

Eletrificação.

Petróleo.

Gás.

Carvão.

Nuclear.

Dutos.

Armazenamento.

Redes elétricas.

Tecnologia.


Existe também uma advertência vindo da China

O crescimento renovável chinês está revelando outro problema gigantesco.

Não basta produzir energia.

É necessário conseguir transportá-la, armazená-la e consumi-la.

Em 2026, limitações da rede elétrica chinesa voltaram a colocar em evidência o chamado curtailment: situações em que parte da energia potencialmente disponível de fontes como solar e eólica não consegue ser aproveitada adequadamente pelo sistema.

Essa experiência oferece uma lição importante para o Brasil.

“Transição energética não é apenas construir aerogeradores e instalar painéis solares.”


É preciso transmissão.

Armazenamento.

Subestações.

Portos.

Navios.

Indústria.

Tecnologia.

Capital.

Mão de obra.

Formação profissional.

Segurança jurídica.

E planejamento para décadas.


E existe dinheiro para tudo isso?

Essa talvez seja a pergunta central.

Transformações energéticas dessa dimensão custam centenas de bilhões — potencialmente trilhões — ao longo das próximas décadas.

De onde virá esse dinheiro?

Jean Paul Prates vem apresentando uma resposta para essa pergunta há anos:

“Parte dele pode vir justamente do petróleo.”

Durante sua gestão na Petrobras, a estratégia anunciada previa bilhões de dólares para descarbonização das operações, biorrefino, renováveis e novos negócios de baixo carbono.

Ao mesmo tempo, a companhia continuaria investindo na exploração e produção de petróleo e gás.

A ideia era utilizar uma atividade altamente rentável para financiar gradualmente a construção de novas atividades energéticas.


E tem mais: petróleo não é apenas combustível

Outro ponto frequentemente esquecido nessa discussão é que petróleo não significa somente gasolina ou diesel.

A petroquímica está presente em milhares de produtos utilizados diariamente pela sociedade moderna.

Polímeros.

Plásticos.

Tintas.

Solventes.

Fibras sintéticas.

Componentes industriais.

Produtos hospitalares.

Insumos utilizados na agricultura.

Produtos químicos.

Equipamentos utilizados, inclusive, na própria cadeia das energias renováveis.


Por isso, prever simplesmente o “fim do petróleo” é muito mais complexo do que imaginar a substituição de automóveis a combustão por veículos elétricos.


A grande oportunidade brasileira

Em abril de 2024, Jean Paul Prates afirmou que o Brasil tinha a “responsabilidade e o dever de liderar a transição energética mundial.”

Pode parecer uma afirmação ambiciosa.

Mas observe o que temos nas mãos.


Petróleo.

Gás.

Água.

Sol.

Vento.

Biomassa.

Biocombustíveis.

Uma das maiores empresas de energia do mundo.

Uma indústria offshore altamente especializada.

Uma extensa costa.

E décadas de conhecimento em engenharia energética.

Talvez nossa maior oportunidade não esteja em escolher um desses caminhos.

Talvez esteja justamente em “conectá-los”.


China, Brasil e uma pergunta para o futuro

A China está construindo renováveis numa escala que nenhum outro país conseguiu alcançar.

Mas continua procurando petróleo.

Continua produzindo gás.

Continua construindo infraestrutura energética.

Continua aumentando sua segurança de abastecimento.

Isso não elimina as contradições ambientais do modelo chinês — inclusive sua enorme utilização de carvão.

Mas revela uma realidade importante:

“Transição energética e segurança energética estão acontecendo simultaneamente.”

E talvez seja justamente aí que o pensamento defendido há anos por Jean Paul Prates mereça ser revisitado.

Não porque um ex-presidente da Petrobras necessariamente tenha todas as respostas.

Mas porque algumas das perguntas que ele colocou sobre a mesa estão se tornando cada vez mais relevantes.

A transição será uma ruptura?

Ou uma transformação gradual?

Precisamos escolher entre petróleo e renováveis?

Ou podemos utilizar a riqueza, a tecnologia e a capacidade industrial do petróleo para construir o próximo sistema energético?

E, principalmente:

“O Brasil vai simplesmente acompanhar a transição energética mundial ou vai aproveitar suas vantagens para liderar parte dela?”

A China já parece ter escolhido sua estratégia.

Ela quer energia.

De todas as fontes que considerar necessárias.

O Brasil possui uma oportunidade rara de construir seu próprio caminho.

Porque talvez nosso maior ativo não seja apenas o petróleo.

Nem apenas o vento.

Nem apenas o sol.


“Talvez nosso maior ativo seja possuir tudo isso ao mesmo tempo.”

E enquanto o mundo discute quando o petróleo vai acabar, a China parece estar fazendo outra pergunta:


“De quanta energia vamos precisar para continuar crescendo?”


Talvez essa seja uma pergunta que o Brasil também precise fazer.


Mundo Offshore

“O futuro da indústria não será construído escolhendo apenas uma fonte de energia. Será construído entendendo como cada uma delas pode ajudar a construir a próxima.”


Sobre o autor

Amerikano
Thelmo Tonini (Amerikano)

Diretor de criação

Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..

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