Crise de combustíveis chega a Moscou: como pode faltar gasolina em uma das maiores potências energéticas do mundo?
Filas, limites de abastecimento e postos sem gasolina chegam à região de Moscou enquanto ataques contra refinarias pressionam o sistema russo. O cenário expõe um paradoxo: ter enormes reservas de petróleo e gás não significa necessariamente ter combustível disponível na bomba.
A Rússia vive uma situação que, há alguns anos, pareceria difícil de imaginar.
Uma das maiores potências energéticas do planeta, segundo maior produtor mundial de petróleo bruto e condensado e também um dos gigantes globais do gás natural, enfrenta uma nova onda de escassez de combustíveis que chegou até Moscou.
Em 20 de agosto, motoristas enfrentavam longas filas para abastecer na capital russa, algumas chegando a aproximadamente um quilômetro, enquanto postos voltaram a estabelecer limites para a quantidade de gasolina vendida. Algumas unidades chegaram a ficar temporariamente sem gasolina, oferecendo apenas diesel.
A pergunta parece inevitável:
Como pode faltar gasolina em uma potência como a Rússia?
A resposta ajuda a entender uma das diferenças mais importantes da indústria de energia:
ter petróleo não é a mesma coisa que ter combustível.
A crise chegou a Moscou
A escassez de combustíveis já vinha atingindo diversas regiões russas, mas ganhou uma dimensão ainda mais simbólica quando as restrições chegaram novamente à região da capital.
Segundo informações publicadas pela Reuters em 19 de agosto, diferentes redes estabeleceram limites para os consumidores.
Postos automatizados da Gazprom Neft chegaram a limitar vendas de gasolina a 40 litros por cliente, enquanto unidades convencionais permitiam até 60 litros. A Rosneft estabeleceu limite de 30 litros de gasolina por veículo em sua rede, enquanto a Tatneft adotou teto de 50 litros. A Lukoil também aplicou restrições em Moscou e regiões próximas.
A segunda onda da crise já havia levado autoridades de pelo menos dez regiões russas a restabelecer restrições sobre a venda de combustíveis.
O problema começou a se intensificar em maio, apresentou alguma melhora posteriormente e voltou a ganhar força durante o verão russo.
O petróleo existe. O problema está depois do poço
Para compreender o que está acontecendo, é preciso separar quatro conceitos:
RESERVA → PRODUÇÃO → REFINO → DISTRIBUIÇÃO
O petróleo extraído de um campo não pode simplesmente ser colocado no tanque de um automóvel.
Depois da produção, o óleo precisa passar por transporte, processamento e refino para ser transformado em gasolina, diesel, querosene de aviação e outros derivados. Depois disso, esses produtos ainda precisam ser armazenados e distribuídos pelo território.
É justamente nessa cadeia que a Rússia vem enfrentando dificuldades.
Ataques ucranianos contra refinarias e outras infraestruturas energéticas russas provocaram interrupções de produção e manutenção não programada em diferentes instalações.
Ao mesmo tempo, a demanda sazonal por combustíveis aumentou.
A combinação entre menor disponibilidade de derivados e maior demanda colocou pressão sobre o abastecimento interno.
Refinarias se transformaram em peças estratégicas da guerra
Desde o início do conflito, a infraestrutura energética tornou-se parte importante da disputa entre Rússia e Ucrânia.
Mais recentemente, ataques de drones ucranianos contra refinarias russas aumentaram a pressão sobre a capacidade de processamento do país.
Isso revela uma vulnerabilidade importante.
Uma nação pode produzir milhões de barris de petróleo por dia, mas, se uma parcela relevante da capacidade de refino ficar indisponível, a oferta doméstica de gasolina e diesel pode cair.
A Rússia possui uma grande infraestrutura de refino. Entre suas principais instalações estão Omsk, com capacidade estimada em cerca de 440 mil barris por dia; Kirishi, com aproximadamente 400 mil; Ryazan e Nizhny Novgorod, com cerca de 340 mil barris por dia cada, segundo levantamento da U.S. Energy Information Administration (EIA).
É por isso que refinarias se tornaram ativos tão estratégicos.
Atacar o refino não significa necessariamente impedir que o petróleo seja produzido. Significa atingir a capacidade de transformar esse petróleo em produtos que movimentam carros, caminhões, aviões, máquinas e parte da economia.
Rússia começou a importar gasolina
Talvez este seja o elemento mais simbólico de toda a crise.
A Rússia, tradicionalmente exportadora de derivados, começou a recorrer ao mercado internacional para reforçar seu próprio abastecimento.
Em julho, a Reuters informou que o país começou a importar gasolina da Índia por via marítima para enfrentar a escassez provocada pelas interrupções em sua infraestrutura energética.
Em agosto, um carregamento de aproximadamente 68 mil toneladas métricas de gasolina originado na Índia chegou ao porto russo de Vitino, no Ártico.
O combustível começou então a ser distribuído internamente por ferrovia. Outros carregamentos estavam previstos, enquanto a Rússia também buscava gasolina da Belarus e do Cazaquistão.
Até derivados provenientes da Coreia do Sul passaram a seguir para o Extremo Oriente russo em uma rota comercial considerada incomum para um país tradicionalmente exportador de diesel.
Moscou também adotou outras medidas para tentar equilibrar o mercado, incluindo restrições às exportações de combustíveis e flexibilização temporária de padrões de qualidade.
O paradoxo das gigantescas reservas de gás da Rússia
É aqui que a situação se torna ainda mais impressionante.
A Rússia não é simplesmente um país produtor de energia.
Ela é um dos maiores gigantes energéticos que já existiram.
Segundo a EIA, a Rússia foi o segundo maior produtor mundial de petróleo bruto e condensado e também o segundo maior produtor de gás natural seco nos dados consolidados referentes a 2023.
Os números das reservas de gás são ainda mais impressionantes.
Dados apresentados pela EIA com base no Annual Statistical Bulletin da OPEP apontam aproximadamente 1.654 trilhões de pés cúbicos (Tcf) de reservas provadas de gás natural russas em 2024.
Historicamente, levantamentos internacionais colocam Rússia e Irã no topo do ranking mundial de reservas provadas de gás natural, com a Rússia aparecendo em primeiro lugar em algumas metodologias e bases de dados.
Mas existe um detalhe fundamental:
gás natural não resolve automaticamente uma escassez de gasolina.
Da mesma maneira, possuir enormes reservas de petróleo não garante que gasolina estará disponível em todos os postos.
São cadeias energéticas diferentes, dependentes de infraestrutura, processamento, transporte e logística.
A crise russa deixa uma aula sobre segurança energética
O caso russo demonstra por que segurança energética não pode ser medida apenas pelo tamanho das reservas existentes debaixo da terra.
Um país pode possuir recursos gigantescos e, ainda assim, enfrentar gargalos.
É necessário ter capacidade de:
produzir → transportar → refinar → armazenar → distribuir.
Se um desses elos sofre uma interrupção suficientemente grande, o problema pode chegar rapidamente ao consumidor.
No caso russo, o contraste é particularmente poderoso.
De um lado, campos gigantescos de petróleo e gás, oleodutos, gasodutos e algumas das maiores empresas energéticas do planeta.
Do outro, motoristas procurando postos onde ainda exista gasolina disponível.
O petróleo debaixo da terra não abastece um carro
A crise também ajuda a desmontar uma percepção comum no debate energético.
Reservas representam o potencial de recursos economicamente recuperáveis sob determinadas condições. Elas não representam combustível pronto para consumo. A própria EIA define reservas provadas como volumes que dados geológicos e de engenharia indicam, com razoável certeza, serem recuperáveis nas condições econômicas e operacionais existentes.
Entre uma reserva subterrânea e o tanque de um automóvel existe uma enorme cadeia industrial.
E a Rússia está demonstrando, em escala nacional, o que acontece quando alguns dos elos mais importantes dessa cadeia são pressionados.
A ironia dificilmente poderia ser maior:
uma das maiores potências de petróleo e gás do planeta está importando gasolina enquanto motoristas enfrentam filas para abastecer em Moscou.
Não porque o petróleo russo desapareceu.
Não porque suas gigantescas reservas de gás deixaram de existir.
Mas porque segurança energética é muito mais do que possuir recursos naturais.
Uma coisa é ter petróleo debaixo da terra.
Outra, completamente diferente, é conseguir colocar combustível dentro do tanque.
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Sobre o autor

Diretor de criação
Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..
