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Elas estão ocupando o mar: por que as mulheres ficaram tanto tempo fora da indústria marítima - e por que esse cenário começa a mudar

Thelmo Tonini (Amerikano)•
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Elas estão ocupando o mar: por que as mulheres ficaram tanto tempo fora da indústria marítima - e por que esse cenário começa a mudar

Starnav Elektra navegou de Santa Catarina ao Rio de Janeiro com 16 mulheres a bordo e coloca no centro do debate uma transformação que vai muito além de uma única embarcação

Durante décadas, olhar para o convés de um navio, uma plataforma offshore, uma sala de máquinas ou determinadas áreas de uma grande instalação industrial significava encontrar um ambiente quase exclusivamente masculino.


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Isso nunca significou falta de capacidade feminina.

A presença reduzida das mulheres está ligada a uma combinação de fatores históricos, culturais e organizacionais que ajudaram a estabelecer determinadas profissões como espaços predominantemente masculinos.

Agora, essa realidade começa a ser confrontada.

E o Brasil acaba de produzir uma imagem poderosa dessa transformação.


16 mulheres. Uma embarcação. Um marco brasileiro.


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Em setembro de 2026, o PSV Starnav Elektra navegou de Santa Catarina ao Rio de Janeiro com uma tripulação 100% feminina, formada por 16 profissionais e liderada pela comandante Isabela Teixeira Ponce de Leon.

A embarcação foi construída no Estaleiro Detroit, em Itajaí (SC), recebeu investimento de aproximadamente R$ 450 milhões e é a primeira entrega do Programa Mar Aberto. Após chegar ao Rio de Janeiro, o navio foi batizado no Píer Mauá e seguirá para operações de apoio às plataformas nas bacias petrolíferas brasileiras.

O simbolismo da viagem é enorme.

Porque as 16 mulheres não estavam a bordo como convidadas.

Elas eram a tripulação.

Estavam ali para navegar, operar, liderar e executar um trabalho historicamente associado aos homens.


Os números mostram o tamanho da distância que ainda existe


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O levantamento global mais recente da Organização Marítima Internacional (IMO) e da WISTA International ajuda a dimensionar o problema.

A pesquisa Women in Maritime Survey 2024 contabilizou 176.820 mulheres trabalhando no setor marítimo dentro da amostra analisada. Mesmo assim, elas representaram pouco menos de 19% da força de trabalho total pesquisada. No setor privado marítimo pesquisado, excluindo marítimos embarcados, a participação feminina foi de 16%.

Quando olhamos especificamente para quem trabalha no mar, a diferença aumenta dramaticamente.

Entre 211.750 marítimos empregados pelas 179 organizações que responderam a essa parte do levantamento, apenas 2.223 eram mulheres.

Isso representa aproximadamente 1%.

Em outras palavras: para cada mulher encontrada nesse universo de trabalhadores embarcados, havia aproximadamente 94 homens.

Isso ajuda a entender por que uma embarcação navegando com 16 mulheres chama tanta atenção.


Por que existem tão poucas mulheres?

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A resposta é muito mais complexa do que simplesmente afirmar que mulheres historicamente escolheram outras profissões.

O próprio relatório IMO-WISTA identifica problemas relacionados a vieses sistêmicos, estereótipos, recrutamento, retenção, progressão profissional e condições de trabalho. O documento afirma que barreiras culturais profundamente estabelecidas continuam restringindo a entrada e o avanço das mulheres na força de trabalho marítima.

A IMO também identifica obstáculos como vieses no recrutamento, falta de oportunidades de promoção e dificuldades relacionadas ao equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Existe ainda um fenômeno importante: representatividade gera percepção de possibilidade.

Quando durante décadas meninas e jovens praticamente não veem mulheres comandando navios, trabalhando em salas de máquinas, realizando manutenção industrial, atuando em plataformas ou liderando operações offshore, essas carreiras podem parecer socialmente distantes.

A ausência de referências ajuda a perpetuar a ausência.

Por isso, programas de mentoria, formação, desenvolvimento de liderança e ambientes de trabalho inclusivos aparecem entre as medidas defendidas internacionalmente para aumentar recrutamento e retenção feminina no setor marítimo.


Existe uma barreira que talvez seja ainda mais impressionante


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O relatório IMO-WISTA 2024 registrou, entre as respostas fornecidas pelas próprias empresas participantes, um exemplo explícito da dimensão do problema: uma companhia declarou que não contratava mulheres para embarcações de apoio offshore.

O relatório utiliza esse caso justamente para mostrar que práticas discriminatórias ainda persistem em partes da indústria marítima mundial.

É difícil imaginar exemplo mais claro de que a baixa presença feminina não pode ser explicada exclusivamente por escolhas individuais.

Existiram — e ainda existem — portas que simplesmente não foram abertas da mesma maneira para todos.


Mas alguma coisa está mudando


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Há outro dado interessante.

Segundo a IMO, mulheres representam cerca de 5% dos estudantes em cursos voltados à carreira marítima embarcada dentro dos dados analisados, percentual superior à participação feminina efetivamente encontrada trabalhando no mar.

Isso indica que existe uma geração tentando entrar.

O desafio passa a ser transformar formação em contratação, contratação em permanência e permanência em progressão profissional.

Não basta colocar mulheres na porta de entrada.

É necessário criar condições para que possam construir carreira, chegar às posições técnicas mais especializadas, assumir supervisões, gerências e comandos.


E é exatamente aí que o Starnav Elektra se torna maior do que um navio


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Uma comandante à frente de uma embarcação significa muito para quem já trabalha no setor.

Mas talvez signifique ainda mais para uma menina que hoje está escolhendo sua profissão.

Ela passa a enxergar algo que gerações anteriores raramente puderam enxergar:

uma mulher naquele lugar.

Comandando.

Operando.

Decidindo.

Navegando.

O Starnav Elektra não resolve sozinho a desigualdade histórica do setor marítimo.

Mas transforma uma possibilidade abstrata em uma imagem concreta.


O futuro da indústria também passa por elas


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A própria IMO mantém desde 1988 um programa dedicado à participação feminina no setor marítimo e hoje recomenda ações para melhorar recrutamento e retenção, ampliar programas de mentoria e liderança, fortalecer políticas de inclusão e garantir ambientes seguros e adequados para mulheres.

Existe ainda uma razão estratégica.

A indústria marítima e offshore passa por uma transformação gigantesca envolvendo digitalização, automação, descarbonização, novas tecnologias, novas embarcações e transição energética.

Esse futuro exigirá profissionais.

Muitos profissionais.

Restringir, direta ou indiretamente, o acesso de metade da população significa reduzir o próprio universo de talentos disponível para enfrentar esses desafios.

Por isso, falar sobre mulheres no offshore não deve ser tratado apenas como uma discussão sobre gênero.

É também uma discussão sobre mão de obra, formação, inovação, produtividade, liderança e futuro da indústria.


O mar está mudando

A viagem das 16 mulheres do Starnav Elektra entre Santa Catarina e o Rio de Janeiro ficará registrada como um daqueles momentos que representam algo maior do que o próprio acontecimento.

Durante muito tempo, perguntava-se se mulheres poderiam ocupar determinados espaços.

Hoje, elas já estão neles.

Na engenharia.

Na manutenção.

Na operação.

Na logística.

Na segurança.

Na ponte de comando.

E no mar.

A pergunta daqui para frente talvez seja outra:

quantas meninas olharão para essas 16 mulheres e perceberão, pela primeira vez, que aquele também pode ser o futuro delas?

Porque quando uma porta histórica se abre, não passa apenas quem chegou primeiro.

Outras começam a enxergar o caminho.


Mundo Offshore - mostrando as pessoas que estão transformando a indústria, dentro e fora do mar.

Sobre o autor

Amerikano
Thelmo Tonini (Amerikano)

Diretor de criação

Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..

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