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O homem que comanda a maior petroleira do mundo diz que a transição energética precisa mudar

Thelmo Tonini (Amerikano)
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O homem que comanda a maior petroleira do mundo diz que a transição energética precisa mudar

Amin Nasser, presidente e CEO da Saudi Aramco, defende que petróleo e gás continuarão necessários por décadas, enquanto renováveis, tecnologia e redução de emissões precisam avançar. Para ele, o mundo não está simplesmente substituindo uma energia por outra. Está adicionando novas fontes.

A Arábia Saudita construiu boa parte de sua riqueza sobre o petróleo.

A Saudi Aramco está no centro dessa história.

E justamente o homem que comanda uma das maiores empresas de petróleo do planeta está dizendo algo que merece atenção:

a transição energética precisa mudar.

Amin H. Nasser, presidente e CEO da Saudi Aramco, não está defendendo o abandono das energias renováveis.

Muito pelo contrário.

A Aramco está participando de projetos solares e eólicos, investindo em tecnologias para redução de emissões, inteligência artificial e novas soluções energéticas.

Mas Nasser questiona uma ideia central que dominou parte do debate energético das últimas décadas:

a possibilidade de substituir rapidamente petróleo e gás por outras fontes.

Para ele, o que está acontecendo no mundo é diferente.

Não estamos simplesmente vivendo uma substituição energética.

Estamos vivendo uma:

“adição energética”.

E entender essa diferença pode ser fundamental para compreender o futuro da energia.


O mundo precisa de cada vez mais energia

Existe um problema básico por trás de toda essa discussão.

A demanda mundial por energia continua crescendo.

População.

Industrialização.

Eletrificação.

Ar-condicionado.

Data centers.

Inteligência artificial.

Mobilidade.

Crescimento econômico dos países emergentes.

Tudo isso exige energia.

Na CERAWeek 2025, em Houston, Nasser argumentou que o consumo global de eletricidade poderá dobrar até 2050.

E justamente por isso ele questiona a ideia de simplesmente retirar fontes existentes antes que alternativas estejam disponíveis em escala, com armazenamento, infraestrutura e preços competitivos.

Segundo sua visão, novas fontes precisam crescer.

Mas as fontes convencionais continuarão sendo necessárias enquanto a demanda mundial também estiver crescendo.


“As novas fontes complementam. Não substituem.”

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes defendidas por Amin Nasser.

Durante a CERAWeek de 2025, ele argumentou que a história energética mostra que novas fontes normalmente são adicionadas ao sistema em vez de eliminarem imediatamente aquelas que vieram antes.

Carvão não eliminou completamente a biomassa.

Petróleo não eliminou o carvão.

Gás não eliminou o petróleo.

E renováveis ainda não eliminaram nenhuma dessas fontes em escala global.

Na visão apresentada por Nasser, solar, eólica e outras alternativas devem continuar crescendo.

Mas precisam trabalhar junto das fontes convencionais durante a transformação.


US$ 50 bilhões em um único ano

E aqui aparece uma informação particularmente interessante.

Na mesma CERAWeek de 2025, Nasser afirmou que a Aramco havia investido mais de US$ 50 bilhões no ano anterior entre energia convencional e diversos projetos de energia renovável.

Ele também mencionou a meta da companhia de participar de investimentos em até 12 GW de capacidade solar e eólica até 2030.

Ou seja:

uma das maiores produtoras de petróleo do planeta também está colocando dinheiro em renováveis.

Mas não está fazendo isso abandonando petróleo e gás.

Está fazendo as duas coisas.


O petróleo continuará sendo central

A posição de Nasser sobre petróleo é bastante clara.

Ele acredita que o mundo continuará necessitando de investimentos de longo prazo na produção.

Em 2025, no Energy Intelligence Forum, em Londres, afirmou que a Aramco pretende continuar extremamente competitiva no petróleo graças à dimensão de suas reservas, aos custos de produção e à intensidade de carbono relativamente baixa de suas operações upstream.

E há outro ponto importante.

A empresa também está aumentando sua aposta no gás natural.


O gás como “amortecedor” do sistema energético

Nasser atribui ao gás um papel particularmente importante.

À medida que solar e eólica crescem, aumenta também a necessidade de fontes capazes de responder rapidamente quando o vento diminui ou o sol desaparece.

É nesse contexto que ele apresenta o gás como uma espécie de amortecedor do sistema.

A Aramco pretende aumentar sua capacidade de produção de gás para venda em mais de 60% até 2030, tomando 2021 como referência.

Para a empresa, portanto, o futuro energético não será apenas petróleo.

Nem apenas renováveis.

O gás também terá um papel estratégico.


E então veio uma frase ainda mais provocativa

Em outubro de 2025, durante o Energy Intelligence Forum, Nasser resumiu sua leitura da transformação energética mundial.

Para ele, aquilo que estamos vivendo não seria propriamente uma substituição completa de energia.

Seria uma:

“energy addition”.

Ou, em português:

“adição energética”.

A explicação é simples.

Quando a demanda mundial aumenta, novas fontes podem crescer rapidamente sem necessariamente reduzir o consumo absoluto das antigas.

Solar cresce.

Eólica cresce.

Veículos elétricos crescem.

Mas petróleo também continua sendo consumido.

Gás continua crescendo.

E até o carvão permanece extremamente relevante em vários mercados.

Isso muda completamente a maneira de enxergar a transição.


A discussão não deveria ser apenas sobre a fonte

Em 2024, na CERAWeek, Nasser apresentou outra ideia importante.

Em vez de concentrar toda a discussão apenas na eliminação de determinadas fontes, ele defendeu maior atenção à redução das emissões associadas à energia.

Eficiência.

Redução de metano.

Captura de carbono.

Combustíveis mais eficientes.

Tecnologia.

Digitalização.

Inteligência artificial.

Para Nasser, existe enorme potencial de redução de emissões dentro do próprio sistema energético existente.

Isso não significa abandonar as renováveis.

Significa atacar as emissões em várias frentes simultaneamente.


Mas ele também faz críticas duras à transição atual

É importante deixar isso claro.

Nasser é um dos críticos mais contundentes do modelo de transição energética adotado em diversos países.

Na CERAWeek 2024, pediu explicitamente uma revisão da estratégia mundial.

Ele argumentou que a tentativa de eliminar petróleo e gás rapidamente não estaria acompanhando a realidade do crescimento da demanda energética.

Também apontou problemas relacionados ao custo da energia, estabilidade das redes elétricas, armazenamento e competitividade das novas tecnologias.

Em 2025, elevou ainda mais o tom.

Segundo Nasser, depois de aproximadamente US$ 10 trilhões em gastos relacionados à transição ao longo de cerca de duas décadas, os hidrocarbonetos continuam dominando o consumo mundial de energia.

Sua conclusão é que a estratégia precisa ser redesenhada.


Isso significa abandonar as metas climáticas?

Segundo o próprio Nasser, não.

Na CERAWeek 2025 ele fez questão de afirmar que sua proposta não significava recuar das ambições climáticas globais.

Para ele, reduzir as emissões de gases de efeito estufa deve continuar sendo prioridade.

A diferença está no caminho.

Em vez de tentar eliminar rapidamente determinadas fontes, sua proposta seria investir simultaneamente em:

energia convencional mais eficiente;

redução das emissões;

renováveis;

novas tecnologias;

armazenamento;

infraestrutura;

digitalização;

e soluções que consigam competir economicamente.


Segurança. Sustentabilidade. E preço.

Existe ainda outro elemento fundamental na visão de Nasser.

Energia não precisa apenas ser sustentável.

Precisa estar disponível.

E precisa ser acessível.

Ele argumenta que três elementos precisam caminhar juntos:

segurança energética;

acessibilidade econômica;

sustentabilidade.

Se uma dessas três pernas falhar, o sistema começa a enfrentar problemas.

E isso é especialmente importante para países em desenvolvimento.


Porque a transição da Europa não é a mesma da África

Esse é outro ponto recorrente nas declarações de Nasser.

Países desenvolvidos e países emergentes possuem realidades completamente diferentes.

Enquanto determinadas economias discutem como substituir fontes existentes, milhões de pessoas ainda precisam aumentar dramaticamente seu consumo energético para melhorar seu padrão de vida.

Industrialização exige energia.

Saneamento exige energia.

Hospitais exigem energia.

Transporte exige energia.

Refrigeração exige energia.

Internet exige energia.

Desenvolvimento exige energia.

Por isso, Nasser defende uma transição que considere diferentes velocidades e diferentes necessidades.


Em 2022 ele já falava nisso

Essa posição não nasceu ontem.

Na CERAWeek de 2022, Nasser já defendia um plano de transição “prático, estável e inclusivo”, sem abandonar os objetivos climáticos.

Também reconhecia explicitamente o papel dos veículos elétricos, da energia solar e da energia eólica em um futuro sustentável.

Ao mesmo tempo, defendia acelerar urgentemente a redução das emissões da própria indústria de petróleo e gás.

Ou seja:

há pelo menos vários anos existe uma linha consistente em seus discursos.

A discussão não é simplesmente:

petróleo contra renováveis.

A discussão é:

como entregar mais energia, com menos emissões, mantendo segurança e preços acessíveis?


E em 2024 surgiu a “Transição 2.0”

Durante a Singapore International Energy Week de 2024, Nasser voltou ao assunto.

Ali, utilizou novamente o conceito de “energy addition”.

Sua proposta passou a ser apresentada como uma espécie de:

“Transition Plan 2.0”.

Um modelo mais pragmático, especialmente para a Ásia e países em desenvolvimento.

Em vez de determinar antecipadamente quais fontes devem desaparecer, a ideia seria permitir que tecnologia, economia, infraestrutura e necessidades regionais determinem a velocidade da transformação.


Então chegamos à grande questão

Imagine a situação.

O homem que dirige uma das maiores companhias petrolíferas do mundo afirma que:

as renováveis precisam crescer.

As emissões precisam cair.

A eficiência precisa aumentar.

Tecnologias precisam avançar.

Mas petróleo e gás continuarão necessários.

E todas essas coisas precisam acontecer ao mesmo tempo.

Naturalmente, existe um interesse empresarial envolvido nessa posição.

A Saudi Aramco é uma gigantesca produtora de hidrocarbonetos.

Isso precisa fazer parte de qualquer análise jornalística séria de suas declarações.

Mas simplesmente ignorar o argumento por causa disso também seria um erro.

Porque a pergunta apresentada por Nasser é real:

como atender uma demanda mundial crescente por energia enquanto simultaneamente reduzimos as emissões?


E onde entra o Brasil?

É justamente aqui que essa discussão começa a ficar muito interessante para nós.

O Brasil possui petróleo.

Possui gás.

Possui hidrelétricas.

Possui etanol.

Possui biodiesel.

Possui uma das melhores condições de geração eólica do planeta.

Possui enorme potencial solar.

Possui biomassa.

Possui potencial para eólica offshore.

Possui indústria.

Possui conhecimento em águas profundas.

Possui profissionais.

Possui tecnologia.

Poucos países possuem tantas opções simultaneamente.

E isso nos leva novamente à pergunta que fizemos quando analisamos a estratégia chinesa:

o Brasil precisa escolher apenas uma fonte?

Ou pode utilizar sua diversidade energética como vantagem competitiva?


Jean Paul Prates e Amin Nasser partem de lugares diferentes. Mas existe um ponto de encontro.

Jean Paul Prates comandou a Petrobras.

Amin Nasser comanda a Saudi Aramco.

São empresas diferentes.

Países diferentes.

Realidades diferentes.

E seria incorreto afirmar que ambos defendem exatamente a mesma política energética.

Mas existe um ponto de contato interessante em suas declarações públicas.

Os dois rejeitam a ideia de que transição energética necessariamente signifique desligar imediatamente o sistema atual para depois construir outro.

Prates já defendeu a coexistência entre petróleo e fontes renováveis e a utilização da riqueza do petróleo para ajudar a financiar novas energias.

Nasser fala em “energy addition” e defende que fontes novas complementem as convencionais enquanto a demanda continuar crescendo.

Duas perspectivas diferentes.

Uma pergunta semelhante:

como construir o próximo sistema energético sem comprometer o funcionamento do atual?


Talvez a palavra mais importante não seja “transição”

Talvez seja:

“energia”.

Porque o mundo precisará de muito mais dela.

Para alimentar cidades.

Indústrias.

Data centers.

Inteligência artificial.

Transportes.

Hospitais.

Casas.

E bilhões de pessoas que ainda aumentarão seu consumo energético nas próximas décadas.

A grande disputa do século XXI talvez não seja simplesmente decidir qual fonte vencerá.

Talvez seja descobrir como produzir toda essa energia com segurança, preço competitivo e emissões cada vez menores.

A China está procurando sua resposta.

A Arábia Saudita está procurando a sua.

A Europa também.

Os Estados Unidos também.

E o Brasil terá que construir a própria.

Amin Nasser chama esse novo cenário de:

“energy addition”.

Talvez essa expressão seja uma das mais importantes para entendermos o que está acontecendo agora na indústria mundial.

Porque enquanto discutimos qual energia vai substituir a outra, a demanda mundial continua crescendo.

E o mundo continua pedindo:

mais energia.

A verdadeira pergunta talvez não seja:

“Quando o petróleo vai acabar?”

Mas sim:

“Como vamos produzir toda a energia que o mundo vai precisar — e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões?”

Essa discussão está apenas começando.

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Sobre o autor

Amerikano
Thelmo Tonini (Amerikano)

Diretor de criação

Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..

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