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R$ 6 BILHÕES E MILHARES DE EMPREGOS: REFINARIA HISTÓRICA PODE SE TRANSFORMAR EM GIGANTE DOS BIOCOMBUSTÍVEIS NO BRASIL

Felipe Regiole•
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R$ 6 BILHÕES E MILHARES DE EMPREGOS: REFINARIA HISTÓRICA PODE SE TRANSFORMAR EM GIGANTE DOS BIOCOMBUSTÍVEIS NO BRASIL

Petrobras, Braskem e Grupo Ultra avaliam investimento para transformar a Refinaria Riograndense em uma unidade dedicada a combustíveis renováveis. Projeto pode criar milhares de empregos, estimular o agronegócio e movimentar a indústria brasileira.

O Brasil está diante de uma decisão industrial que pode marcar um novo capítulo em sua história energética.

Localizada no município de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, a Refinaria de Petróleo Riograndense poderá receber aproximadamente R$ 6 bilhões para uma transformação estrutural: deixar o modelo tradicional baseado em petróleo fóssil e avançar para a produção industrial de combustíveis e produtos de origem renovável.

A decisão sobre o investimento está nas mãos de três importantes grupos empresariais: Petrobras, Braskem e Grupo Ultra, acionistas da unidade.

Segundo informações divulgadas pela imprensa regional em outubro de 2026, a refinaria já concluiu os estudos e encaminhou os documentos técnicos solicitados pelos sócios. A expectativa é que a decisão sobre o avanço do empreendimento ocorra até o final deste mês.

A aprovação, entretanto, ainda não havia sido oficialmente confirmada nas informações consultadas para esta reportagem.


Uma refinaria que acompanha a história do petróleo brasileiro

Fundada em 1937, a Refinaria Riograndense ocupa um lugar especial na história industrial do Brasil.

A unidade foi inaugurada décadas antes da descoberta dos grandes campos offshore e da consolidação do pré-sal como uma das principais fronteiras mundiais de produção petrolífera.

Com capacidade instalada de aproximadamente 17 mil barris por dia, a refinaria tradicionalmente processa petróleo para produzir combustíveis e insumos industriais, como gasolina, diesel, gás liquefeito de petróleo, nafta e óleo combustível.

Agora, quase nove décadas depois de sua inauguração, o empreendimento poderá passar por uma de suas maiores transformações.

E essa mudança não significa simplesmente trocar petróleo por óleo vegetal. Exige um complexo processo de engenharia, modernização tecnológica, adaptação de instalações industriais e desenvolvimento de novas cadeias de suprimentos.


O que é uma biorrefinaria?

Uma biorrefinaria é uma instalação industrial que utiliza matérias-primas de origem biológica para produzir combustíveis, insumos químicos e outros produtos.

Em vez de depender exclusivamente do petróleo extraído do subsolo ou do mar, a indústria pode utilizar óleos vegetais, gorduras animais, óleos residuais e outras matérias-primas renováveis.

Esses insumos passam por processos industriais de transformação para gerar produtos que podem atender diferentes mercados.

Entre os produtos previstos para a Riograndense estão o diesel renovável, o gás de cozinha de origem renovável, componentes químicos e, em etapas planejadas do projeto, combustíveis sustentáveis de aviação.

O diesel renovável, frequentemente identificado como HVO, é diferente do biodiesel convencional.

O biodiesel tradicional é composto principalmente por ésteres produzidos a partir de óleos e gorduras. O HVO é um combustível constituído por hidrocarbonetos, obtidos por processamento industrial de matérias-primas renováveis.

Essa diferença tecnológica pode representar vantagens de compatibilidade e utilização, dependendo das especificações do produto final e das exigências regulatórias.


A tecnologia já começou a ser testada

Um aspecto importante do projeto é que a Refinaria Riograndense não está começando do zero.

Desde 2023, a unidade desenvolve experiências relacionadas ao processamento de matérias-primas renováveis.

Em 2024, a empresa anunciou o licenciamento de tecnologia da dinamarquesa Topsoe para apoiar sua futura produção de combustíveis renováveis.

Em fevereiro de 2025, realizou testes de coprocessamento utilizando carga mineral combinada com bio-óleo de origem celulósica.

Posteriormente, em dezembro de 2025, a refinaria realizou uma experiência utilizando óleo técnico de milho e óleo de soja no processamento de carga renovável.

Essas iniciativas demonstram que a transformação envolve conhecimento acumulado, desenvolvimento tecnológico e validação de processos industriais.

Outro avanço ocorreu em 26 de janeiro de 2026, quando a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) concedeu autorizações relacionadas ao processamento de carga 100% renovável e à produção e comercialização de Bio-GL.

Trata-se de uma etapa relevante para o desenvolvimento tecnológico e regulatório do empreendimento, mas distinta da aprovação financeira da conversão integral.


Até 4 mil empregos durante a implantação

Além da importância energética, o empreendimento poderá representar uma transformação econômica para Rio Grande e municípios vizinhos.

Estimativas divulgadas em setembro apontam aproximadamente 4 mil empregos no pico das obras, podendo chegar a 4 mil a 5 mil conforme projeções posteriores da imprensa regional.

Após a implantação, o projeto prevê aproximadamente 400 a 500 postos permanentes na operação.

Esses números são projeções associadas à execução do investimento e não representam vagas abertas neste momento.

A transformação poderá criar demanda por profissionais de engenharia, instrumentação, automação, manutenção industrial, elétrica, mecânica, planejamento, montagem, inspeção, segurança do trabalho, processos químicos e logística.

Empresas especializadas em equipamentos industriais, tubulações, válvulas, sistemas de controle e serviços de montagem também poderão encontrar oportunidades.

A modernização de uma refinaria é uma atividade complexa que exige profissionais qualificados, procedimentos rigorosos de segurança e integração de diferentes especialidades técnicas.


Uma nova oportunidade para fornecedores industriais

O investimento anunciado tem potencial para movimentar muito mais do que a unidade de refino.

Empreendimentos dessa dimensão costumam demandar estudos de engenharia, contratação de equipamentos, construção civil, serviços especializados, sistemas elétricos, automação e soluções ambientais.

Para os fornecedores brasileiros, especialmente empresas ligadas à indústria de petróleo, gás e energia, a mudança pode criar um novo mercado.

Muitas competências desenvolvidas durante décadas nas refinarias convencionais também são aplicáveis a instalações de combustíveis renováveis.

Isso inclui controle de processos, confiabilidade de equipamentos, manutenção de máquinas rotativas, instrumentação, sistemas de segurança e gerenciamento de paradas industriais.

A transição energética, portanto, não significa necessariamente abandonar a experiência construída pela indústria petrolífera. Em muitos casos, significa utilizar essa experiência em novas tecnologias e produtos.


O agronegócio também poderá crescer

A futura biorrefinaria poderá abrir espaço para uma cadeia de fornecimento envolvendo o agronegócio brasileiro.

Óleo de soja, óleo técnico de milho, óleo de cozinha usado, gorduras animais e outras matérias-primas renováveis estão entre os insumos considerados no desenvolvimento dessas tecnologias.

Também existem perspectivas para culturas como canola e carinata, que podem ampliar as opções de produção agrícola na região Sul.

A criação de um mercado industrial para esses produtos poderá estimular novas atividades de armazenamento, beneficiamento, transporte e comercialização.

Uma reportagem publicada em outubro também apontou estimativas de movimentação econômica adicional no entorno do empreendimento, especialmente em atividades agrícolas e logísticas.

É importante destacar que essas movimentações são projeções e dependem da implantação efetiva da nova estrutura industrial.


Diesel renovável e combustível de aviação: novos mercados

Um dos objetivos estratégicos das biorrefinarias é ampliar a oferta de combustíveis com potencial de redução de emissões de gases de efeito estufa ao longo de seu ciclo de vida.

No caso da Refinaria Riograndense, o projeto contempla produtos como diesel renovável, Bio-GL e insumos químicos renováveis.

O combustível sustentável de aviação, conhecido internacionalmente como SAF, também aparece entre os produtos previstos para etapas futuras do empreendimento.

Esses mercados vêm ganhando importância diante das metas de descarbonização de diferentes setores econômicos.

Entretanto, os benefícios ambientais efetivos dependem de fatores como origem das matérias-primas, uso da terra, energia consumida durante a produção, transporte e tecnologia utilizada.

Por isso, não basta classificar um produto como renovável para concluir que ele possui emissão zero.

A avaliação ambiental exige a análise de todo o ciclo de vida do combustível.


Capacidade projetada de 800 mil toneladas anuais

As projeções divulgadas em setembro de 2026 indicam que o complexo poderá alcançar capacidade da ordem de 800 mil toneladas de biocombustíveis por ano.

O volume representa uma transformação relevante em relação ao perfil atual de uma refinaria historicamente dedicada a derivados fósseis.

A produção efetiva, a distribuição entre diferentes produtos e o cronograma de implantação dependerão das definições finais do projeto.

O planejamento informado naquele período apontava para entrada em operação em 2029.

É necessário considerar que outras comunicações anteriores apresentaram cronogramas diferentes, incluindo expectativas para 2028. Assim, a data de início operacional deverá ser confirmada depois da decisão de investimento e da atualização oficial do cronograma.


Por que a decisão ainda não foi tomada?

Apesar do avanço técnico, o projeto depende de uma etapa essencial: a decisão final dos acionistas.

Esse processo envolve avaliação econômica, estrutura de financiamento, distribuição de responsabilidades, retorno esperado e condições para execução.

Informações publicadas ao longo de 2026 também apontaram que questões relacionadas à situação societária da Braskem contribuíram para as incertezas em torno do empreendimento.

Um investimento industrial de R$ 6 bilhões exige planejamento financeiro e operacional de longo prazo.

Portanto, mesmo com os estudos técnicos concluídos e com avanços regulatórios já obtidos, o início das obras não deve ser tratado como confirmado antes da deliberação empresarial.


A transição energética também acontece dentro das refinarias

O projeto de Rio Grande integra uma transformação mais ampla do setor energético brasileiro.

No Plano de Negócios 2026–2030, a Petrobras inclui iniciativas de ampliação da capacidade de refino, melhoria da qualidade dos combustíveis e desenvolvimento de produtos com conteúdo renovável.

Entre as iniciativas anunciadas estão projetos voltados ao diesel renovável, ao combustível sustentável de aviação e ao coprocessamento de matérias-primas renováveis.

Isso mostra que o futuro da indústria energética pode combinar produção de petróleo e gás natural, modernização das refinarias e desenvolvimento de alternativas de menor intensidade de carbono.

O Brasil reúne vantagens importantes para essa transformação, incluindo experiência em refino, produção agrícola, conhecimento em biocombustíveis, infraestrutura logística e capacidade técnica industrial.

Entretanto, o avanço dependerá de investimentos, segurança jurídica, competitividade e acesso a matérias-primas sustentáveis.


O que vem pela frente?

A expectativa do setor está voltada para a decisão dos acionistas da Refinaria Riograndense, prevista para o fim de outubro de 2026.

Caso o projeto seja aprovado, os próximos passos deverão envolver a confirmação do cronograma, o detalhamento das contratações, os investimentos em infraestrutura e a organização da futura cadeia de fornecimento.

Para trabalhadores e empresas interessados nas oportunidades, o momento é de acompanhar os comunicados oficiais e preparar-se para as especialidades técnicas que poderão ser demandadas.

O Mundo Offshore continuará acompanhando o desenvolvimento do projeto, seus impactos na indústria, as perspectivas para fornecedores e as futuras oportunidades profissionais.

A possível transformação da Refinaria Riograndense demonstra que a transição energética brasileira poderá ser construída também com a experiência de quem conhece profundamente a indústria do petróleo.



Porque o futuro da energia não depende apenas de descobrir novas fontes. Depende também de transformar conhecimento, tecnologia e capacidade industrial em novas oportunidades para o Brasil.

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Sobre o autor

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Felipe Regiole

Jornalista

Felipe Regiole é colaborador do Mundo Offshore.

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