Estaleiro Inhaúma volta após 10 anos: P-35 e milhares de empregos
Gigante da indústria naval brasileira pode renascer após 10 anos: Estaleiro Inhaúma se prepara para receber a P-35 e gerar milhares de empregos
MUNDO OFFSHORE | INDÚSTRIA NAVAL | 19 DE OUTUBRO DE 2026
Revitalização do histórico estaleiro no Rio de Janeiro avança com recuperação de infraestrutura, novos projetos offshore e expectativa de retomada dos serviços navais em janeiro de 2027.
A indústria naval brasileira está diante de uma oportunidade importante de retomada. Depois de aproximadamente dez anos sem realizar obras de construção e reparo naval, o histórico Estaleiro Inhaúma, localizado no bairro do Caju, na cidade do Rio de Janeiro, passa por um processo de revitalização que poderá transformar a instalação em um polo de manutenção, reparo, descomissionamento e reciclagem de grandes embarcações e estruturas offshore.
A movimentação ganhou destaque com a previsão de chegada da plataforma P-35, da Petrobras, nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2026. A unidade encerrou seu ciclo de produção de petróleo na Bacia de Campos e poderá marcar uma nova etapa na utilização da infraestrutura do estaleiro.
Segundo informações divulgadas pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (SINAVAL) e pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a recuperação das instalações está avançando, com expectativa de que novos serviços possam ser realizados a partir de janeiro de 2027.
Um estaleiro histórico que pode voltar a produzir
O Estaleiro Inhaúma, anteriormente conhecido como Ishikawajima, faz parte da história da construção naval brasileira desde o final da década de 1950.
Durante décadas, grandes instalações industriais como essa contribuíram para desenvolver mão de obra especializada, movimentar fornecedores e fortalecer a capacidade nacional de construção e manutenção de embarcações.
Entretanto, a retração da indústria naval brasileira nas últimas décadas comprometeu a utilização de diversos estaleiros.
No caso do Inhaúma, a estrutura permaneceu aproximadamente dez anos sem atividades de construção e reparo naval.
Agora, o cenário começa a mudar.
A revitalização está sendo conduzida pela Clip Offshore, empreendimento que reúne o Grupo Gávea e uma empresa ligada ao grupo filipino ICTSI, operador internacional de terminais portuários.
A iniciativa procura aproveitar a localização estratégica do estaleiro, próximo à infraestrutura portuária do Rio de Janeiro e às principais operações de petróleo e gás da região Sudeste.
Dique seco gigante passa por recuperação e pode receber grandes embarcações
Um dos principais avanços apresentados pelos responsáveis pelo empreendimento envolve a recuperação do dique seco, infraestrutura fundamental para manutenção e reparo de embarcações.
Para quem não conhece, o dique seco funciona como uma enorme área de trabalho que pode ser isolada da água. Depois que a embarcação entra, a água é retirada, permitindo que equipes técnicas tenham acesso à parte inferior do casco.
É nesse ambiente que são executadas inspeções, reparos estruturais, tratamentos anticorrosivos e diversos serviços especializados.
Durante visita realizada em 14 de outubro, representantes da Petrobras e da Firjan conheceram as intervenções realizadas no Estaleiro Inhaúma.
Segundo a Firjan, a dragagem alcançou 9,5 metros de profundidade e a porta de vedação do maior dique já foi instalada. A estrutura encontra-se em estágio avançado de preparação.
A previsão apresentada é de que o empreendimento amplie sua capacidade de atendimento em janeiro de 2027, dependendo da conclusão das etapas técnicas e dos licenciamentos necessários.
P-35: uma história de décadas na produção brasileira de petróleo
A plataforma P-35 é uma das protagonistas desse momento de transformação.
Originalmente construída como o navio petroleiro José Bonifácio, no final da década de 1970, a embarcação foi posteriormente convertida em uma unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência de petróleo, conhecida internacionalmente pela sigla FPSO.
Ao longo de sua trajetória, a P-35 participou do desenvolvimento da produção de petróleo no Campo de Marlim, localizado na Bacia de Campos.
Segundo o SINAVAL, sua operação produtiva foi encerrada em 30 de abril de 2026, depois de 27 anos de atuação no campo.
Com mais de 330 metros de comprimento, a unidade representa um desafio logístico significativo para movimentação e preparação.
Antes de sua transferência para o Estaleiro Inhaúma, foram realizadas intervenções em componentes superiores, incluindo partes do sistema de flare, utilizado na queima controlada de gases, e do conjunto do turret, associado à amarração e aos sistemas de transferência de fluidos da unidade.
Essas intervenções foram necessárias para permitir a passagem da plataforma sob a Ponte Rio–Niterói.
Até o fechamento desta matéria, as fontes consultadas informavam a chegada prevista para 19 de outubro, sem confirmação independente de que a acostagem já tivesse sido concluída.
A plataforma será desmontada ou reaproveitada?
Essa é uma das perguntas mais importantes envolvendo a P-35.
Embora a unidade tenha encerrado sua produção, isso não significa que toda a sua estrutura precise necessariamente ser transformada em sucata.
A Petrobras avalia alternativas técnicas que podem incluir o reaproveitamento do casco em projetos futuros ou o desmantelamento de determinados componentes.
Esse processo envolve análises estruturais, econômicas, ambientais e de segurança.
Também será necessário considerar as condições dos equipamentos, a integridade do casco e a viabilidade de novas aplicações.
Por enquanto, não existe confirmação pública definitiva sobre a destinação completa da unidade nas fontes consultadas.
Os serviços já informados pela Firjan incluem acostagem, limpeza de coral-sol, limpeza e inspeção de tanques, manutenção de classe e gerenciamento de resíduos.
Milhares de empregos poderão ser gerados na retomada da indústria naval
Talvez o aspecto mais importante dessa história para milhares de brasileiros seja o potencial de geração de empregos.
A recuperação de um estaleiro de grande porte pode movimentar uma cadeia extensa de trabalhadores e empresas fornecedoras.
Entre as áreas profissionais que poderão ser demandadas, dependendo dos contratos efetivamente conquistados, destacam-se:
- Soldadores, caldeireiros, montadores e profissionais de estruturas metálicas.
- Mecânicos industriais e navais, eletricistas e instrumentistas.
- Técnicos de automação, planejamento e manutenção.
- Engenheiros mecânicos, navais, eletricistas e de produção.
- Profissionais de segurança do trabalho, meio ambiente e qualidade.
- Especialistas em inspeção, pintura industrial, movimentação de cargas e logística.
A movimentação também poderá beneficiar prestadores de serviços de transporte, alimentação, hospedagem e fornecimento de materiais.
De acordo com a divulgação do SINAVAL, os operadores do empreendimento apontam potencial de geração de milhares de empregos. Entretanto, é fundamental esclarecer que essa projeção não representa contratações confirmadas nem vagas atualmente abertas.
O número efetivo de postos dependerá da demanda de serviços, dos contratos fechados e da evolução operacional do estaleiro.
O que é descomissionamento e por que esse mercado é importante?
O descomissionamento é o conjunto de atividades realizadas quando uma instalação industrial ou offshore chega ao final de sua vida produtiva.
No setor de petróleo e gás, esse processo pode incluir retirada de equipamentos, limpeza de sistemas, descontaminação, destinação adequada de resíduos, desmontagem de estruturas e reciclagem de materiais.
Em determinadas situações, componentes e equipamentos podem ser recuperados e reutilizados.
O processo exige planejamento rigoroso, profissionais qualificados e cumprimento da legislação ambiental e das normas de segurança.
A existência de instalações brasileiras preparadas para esse tipo de atividade representa uma oportunidade de ampliar a participação nacional na cadeia de serviços offshore.
Além disso, o descomissionamento pode estimular mercados especializados, como metalurgia, logística portuária, engenharia, inspeção, automação e tratamento de resíduos.
A capacidade de realizar essas operações no Brasil pode contribuir para agregar valor à indústria nacional, desde que os empreendimentos sejam técnica e economicamente competitivos.
Investimentos e expansão da infraestrutura portuária
A retomada do Inhaúma também está associada à estratégia de ampliação das operações portuárias do grupo ICTSI no Rio de Janeiro.
Segundo informações divulgadas pelo SINAVAL a partir de reportagem do portal Portos e Navios, o projeto Clip Offshore contempla aproximadamente 171 mil metros quadrados.
A expansão do Rio Brasil Terminal também envolve um investimento anunciado de R$ 948 milhões para aumento de capacidade na área portuária arrendada.
É importante destacar que esse montante está relacionado à expansão portuária informada pelo grupo e não deve ser apresentado como orçamento exclusivo de revitalização do estaleiro.
A estratégia empresarial contempla atividades relacionadas a movimentação de cargas, serviços offshore, reparos, desmantelamento e reciclagem de ativos industriais.
Oportunidades para o Espírito Santo e outros estados brasileiros
A possível reativação do Estaleiro Inhaúma também merece atenção de profissionais e empresas de outros estados, principalmente do Espírito Santo.
O estado possui uma cadeia produtiva ligada à exploração e produção de petróleo, atividades portuárias, metalmecânica, siderurgia, manutenção e logística.
Esse conjunto de competências poderá facilitar a participação de fornecedores capixabas em futuros contratos ligados à recuperação e manutenção de embarcações.
Empresas especializadas em fabricação metálica, automação, instrumentação, inspeção industrial, engenharia e movimentação de cargas poderão acompanhar as oportunidades abertas por esse mercado.
Porém, ainda não existem contratos específicos anunciados que permitam quantificar benefícios diretos para o Espírito Santo decorrentes da retomada do Inhaúma.
A oportunidade existe como perspectiva de integração industrial, não como investimento confirmado no território capixaba.
A retomada naval não acontece apenas no Rio de Janeiro
O movimento brasileiro de recuperação de capacidade industrial também aparece em outras regiões.
Em outubro de 2026, o SINAVAL divulgou o retorno da construção de navios no Estaleiro Rio Grande, no Rio Grande do Sul, após aproximadamente dez anos sem a construção de novas embarcações.
O empreendimento iniciou atividades relacionadas a quatro navios encomendados pela Transpetro, com previsão divulgada de aproximadamente 1.700 empregos.
No Nordeste, projetos financiados pelo Fundo da Marinha Mercante também integram a perspectiva de fortalecimento da indústria naval.
Essas iniciativas mostram que o debate sobre estaleiros brasileiros vai além de uma única instalação: envolve capacidade produtiva nacional, qualificação profissional, investimentos, competitividade e planejamento industrial.
O que falta para o Estaleiro Inhaúma voltar a operar plenamente?
Apesar dos avanços, a retomada exige a conclusão de etapas importantes.
O empreendimento precisa consolidar a recuperação da infraestrutura, concluir os licenciamentos aplicáveis, garantir a segurança operacional e assegurar uma carteira de serviços economicamente viável.
A expectativa informada pela Firjan é que novas atividades possam ser incorporadas ao portfólio em janeiro de 2027.
Esse prazo deve ser interpretado como previsão, e não como garantia de plena operação comercial ou geração imediata de milhares de empregos.
O acompanhamento dos primeiros contratos e da efetiva abertura de postos de trabalho será fundamental para avaliar os resultados da revitalização.
Mundo Offshore acompanhará oportunidades na indústria naval
O Mundo Offshore considera a recuperação da capacidade industrial brasileira um assunto fundamental para os profissionais do setor energético e marítimo.
A possibilidade de reativar instalações históricas, atrair novos negócios, desenvolver fornecedores e gerar empregos especializados merece acompanhamento constante.
Mais do que recuperar um estaleiro, o Brasil tem a oportunidade de fortalecer conhecimentos técnicos, ampliar sua capacidade de prestação de serviços e transformar estruturas industriais existentes em novas oportunidades econômicas.
A chegada prevista da P-35 ao Inhaúma representa um capítulo importante dessa história.
Mas o verdadeiro resultado será medido pelos serviços realizados, pela geração concreta de empregos e pela capacidade de manter o empreendimento competitivo nos próximos anos.
O gigante pode estar despertando. Agora, o desafio é transformar a expectativa em atividade industrial, contratos e oportunidades reais para o trabalhador brasileiro.
Fontes consultadas
- Firjan — Visita técnica e revitalização do Estaleiro Inhaúma (16/10/2026).
- SINAVAL — P-35 é esperada para acostagem no Inhaúma (15/10/2026).
- SINAVAL — Retomada do estaleiro e preparação para receber a P-35 (16/10/2026).
- Petronotícias — Recuperação do Estaleiro Inhaúma (15/10/2026).
Sobre o autor

Diretor de criação
Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..
