OceanPact CBO nasce com 70 embarcações e amplia a capacidade do apoio marítimo brasileiro
Combinação reúne mais de cinco mil profissionais, receita anual superior a R$ 4 bilhões e carteira de contratos acima de R$ 14 bilhões, mas concentração no segmento de RSVs e diferença no número da frota ainda exigem acompanhamento
A conclusão da combinação de negócios entre OceanPact e CBO criou uma das maiores estruturas de serviços marítimos e offshore do Brasil. Finalizada em 16 de setembro de 2026, depois da aprovação definitiva do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o CADE, a operação incorporou a CBO à OceanPact e deu origem à unidade de navegação OceanPact CBO.
De acordo com as informações divulgadas pela companhia, a nova estrutura opera uma frota integrada de 70 embarcações, reúne mais de cinco mil profissionais, possui receita anual superior a R$ 4 bilhões e uma carteira de contratos, o chamado backlog, acima de R$ 14 bilhões.
Os números colocam a OceanPact CBO entre as principais empresas brasileiras de apoio marítimo e serviços offshore. Entretanto, o verdadeiro impacto da combinação não será determinado somente pelo tamanho da frota. O resultado dependerá da capacidade de transformar escala em eficiência, segurança, investimentos, qualificação profissional, conteúdo nacional e preços competitivos.
Como ficou a frota da OceanPact CBO
A composição divulgada pela empresa reúne diferentes tipos de embarcações, preparadas para atender atividades de logística, engenharia submarina, movimentação de estruturas e resposta a emergências ambientais.
A frota informada é composta por:
- 38 embarcações dos tipos PSV e OSRV;
- 15 embarcações AHTS ou OTSV;
- 15 embarcações RSV;
- duas embarcações especializadas, classificadas pela companhia como RV.
Os PSVs são responsáveis pelo transporte de suprimentos, equipamentos, água, combustível e outros materiais necessários às unidades marítimas de perfuração e produção.
Os OSRVs atuam no combate a derramamentos de óleo e podem ser equipados com sistemas de monitoramento, contenção, recolhimento e armazenamento de hidrocarbonetos recuperados no mar.
Os AHTSs realizam operações de reboque, movimentação de âncoras e apoio a terminais oceânicos e monoboias. Já os RSVs oferecem suporte a veículos submarinos operados remotamente, os ROVs, empregados em inspeções, intervenções e manutenção de equipamentos instalados no fundo do mar.
A complementaridade da frota é um dos principais argumentos favoráveis à operação. A companhia passa a reunir, dentro da mesma estrutura, embarcações destinadas à logística offshore, resposta ambiental, operações submarinas, manutenção de terminais e projetos de engenharia.
Escala pode melhorar a disponibilidade operacional
Uma frota maior pode permitir melhor planejamento de docagens, manutenção e substituição de embarcações. Quando uma unidade precisa sair de operação, a disponibilidade de outros ativos pode facilitar a reorganização dos contratos e diminuir o risco de interrupções.
Esse benefício, entretanto, não acontece automaticamente. Para que a escala se transforme em eficiência, a integração precisa produzir padronização, planejamento, manutenção preventiva, qualificação das equipes e rapidez na tomada de decisões.
Uma companhia maior também pode enfrentar desafios administrativos. Se a integração criar excesso de burocracia ou demora nas decisões, parte dos ganhos operacionais esperados poderá ser reduzida.
A operação deverá ser avaliada pela disponibilidade efetiva das embarcações, pelo cumprimento dos contratos, pelos indicadores de segurança e pela capacidade de atender os clientes sem interrupções.
Potencial de investimento e fortalecimento da indústria nacional
O apoio marítimo brasileiro atravessa um novo ciclo de demanda. A entrada de novas plataformas, o crescimento da produção do pré-sal, as campanhas de perfuração, a expansão das operações submarinas e os projetos de descomissionamento exigirão mais embarcações e profissionais especializados.
Uma empresa com receita anual superior a R$ 4 bilhões e backlog acima de R$ 14 bilhões pode ganhar maior previsibilidade financeira para realizar docagens, modernizar sistemas, adaptar embarcações e desenvolver novos projetos.
A CBO acumula mais de quatro décadas de experiência no apoio marítimo e na construção naval. A OceanPact desenvolveu competências em resposta a emergências ambientais, oceanografia, logística, descomissionamento, engenharia e operações submarinas.
A OceanPact também concluiu em 2026 a aquisição da Dock Brasil, estaleiro localizado no Gradim, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. A integração entre frota, engenharia, operações e capacidade de manutenção pode ampliar a participação de fornecedores brasileiros.
Uma embarcação offshore movimenta uma extensa cadeia produtiva em terra. Essa cadeia inclui estaleiros, oficinas, empresas de automação, fabricantes de equipamentos, fornecedores de peças, alimentação, hotelaria, transporte, treinamento e serviços de engenharia.
Por esse motivo, o impacto econômico da OceanPact CBO poderá ultrapassar as atividades realizadas no mar.
A combinação vai gerar ou eliminar empregos?
A união de duas empresas não significa automaticamente redução de empregos. Também não garante a abertura imediata de novas vagas.
Em processos de integração empresarial, podem ocorrer reorganizações administrativas e eliminação de funções duplicadas. Esse risco deve ser considerado. Por outro lado, novos contratos, maior ocupação da frota, construção de embarcações e internalização de serviços podem gerar oportunidades marítimas, industriais, administrativas e tecnológicas.
O efeito sobre o emprego dependerá da expansão real das operações.
Com mais de cinco mil profissionais, a OceanPact CBO também pode ampliar programas de formação e desenvolver trajetórias profissionais para marítimos, técnicos, engenheiros, operadores de ROV, especialistas em posicionamento dinâmico e profissionais de manutenção.
O setor offshore brasileiro enfrenta dificuldades para encontrar mão de obra qualificada em algumas atividades. O crescimento da frota precisará ser acompanhado por treinamento, certificações, valorização profissional e condições adequadas de trabalho.
Inovação e redução de emissões
A combinação também reúne projetos relacionados à digitalização, monitoramento ambiental, manutenção preditiva e redução de emissões.
A CBO realizou a primeira conversão de uma embarcação para operação híbrida no Brasil e desenvolveu iniciativas de adaptação de motores marítimos para o uso de etanol.
A OceanPact possui operações de monitoramento ambiental, resposta a emergências, drones, oceanografia e tecnologias submarinas.
A união dessas competências pode acelerar testes com sistemas híbridos, combustíveis de menor emissão, sensores, manutenção baseada em dados e centros integrados de inteligência operacional.
Isso não significa que a frota se tornará imediatamente uma operação de emissão zero. Entretanto, a tecnologia pode reduzir o consumo de combustível, otimizar rotas, prevenir falhas e diminuir as emissões por operação realizada.
A OceanPact CBO criou um monopólio?
Não. A operação foi analisada pelo CADE e aprovada sem restrições.
Segundo informações divulgadas sobre o processo, não foram identificadas sobreposições capazes de justificar uma intervenção nos mercados de embarcações AHTS, PSV e OSRV.
O principal ponto de atenção esteve no segmento de RSVs. Nesse mercado específico, a participação combinada foi calculada em aproximadamente 40%.
A Petrobras participou da análise como terceira interessada e apresentou preocupações relacionadas à concentração, à disponibilidade de embarcações, às condições das futuras contratações e às barreiras para entrada de unidades estrangeiras.
A preocupação não pode ser descartada, pois os RSVs são embarcações especializadas e essenciais para operações submarinas no pré-sal. Entretanto, OceanPact e CBO argumentaram que o mercado permanece competitivo, que diferentes embarcações podem ser adaptadas para algumas operações com ROV e que os grandes contratantes possuem significativo poder de negociação.
Depois da análise, o CADE concluiu que a operação não justificava a imposição de restrições.
Portanto, afirmar que a combinação criou um monopólio seria incorreto. Isso não significa, porém, que o mercado de RSVs deva deixar de ser acompanhado. Preços, licitações, disponibilidade de ativos e entrada de novos concorrentes continuarão sendo indicadores importantes.
Uma empresa maior poderá cobrar qualquer preço?
O mercado de apoio marítimo não funciona dessa maneira.
Os preços dos contratos dependem de licitações, disponibilidade de navios, exigências técnicas, duração dos contratos, custos operacionais, oferta internacional de embarcações e ciclos de investimento das operadoras.
Os grandes contratantes também possuem poder de compra e podem desenvolver estratégias para preservar a competição, como contratos divididos em diferentes lotes, exigências de novas construções e processos de contratação em momentos distintos.
A escala pode gerar eficiência, mas não substitui a necessidade de apresentar preço, segurança, disponibilidade e desempenho melhores do que os concorrentes.
Bandeira brasileira e concorrência estrangeira
Outro ponto discutido durante a análise envolve a preferência concedida às embarcações brasileiras.
Antes do afretamento de determinadas embarcações estrangeiras, ocorre um processo de circularização para verificar se existe uma unidade brasileira adequada e disponível para o contrato.
Para alguns participantes do mercado, esse sistema pode limitar a concorrência internacional. Para outros, a preferência à bandeira brasileira é essencial para preservar empregos, empresas de navegação e capacidade industrial dentro do país.
Embarcações estrangeiras continuam operando no Brasil, e o mercado nacional permanece conectado à oferta internacional.
O desafio é equilibrar proteção à indústria brasileira com eficiência operacional, produtividade e preços competitivos.
Por que o número caiu de 73 para 70 embarcações?
Quando a combinação foi anunciada, em fevereiro de 2026, a projeção era de uma frota com 73 embarcações: 40 PSVs e OSRVs, 15 AHTSs, 15 RSVs e três outras unidades.
No fechamento, a companhia informou uma frota de 70 embarcações: 38 PSVs e OSRVs, 15 AHTSs, 15 RSVs e duas outras unidades.
Até a publicação desta matéria, as fontes oficiais consultadas não apresentavam uma explicação detalhada identificando as três embarcações ou esclarecendo a razão da diferença.
A ausência desse esclarecimento não invalida a operação, mas representa um ponto que merece transparência, especialmente porque a OceanPact é uma companhia aberta e possui ações negociadas na B3.
O Mundo Offshore continuará acompanhando os comunicados da companhia, os documentos entregues à Comissão de Valores Mobiliários e eventuais atualizações relacionadas à composição da frota.
O sucesso será medido no mar e em terra
A combinação entre OceanPact e CBO criou uma empresa brasileira com escala para participar de projetos cada vez mais complexos.
O resultado, entretanto, não deverá ser avaliado apenas pelo número de embarcações.
Será necessário acompanhar a taxa de ocupação da frota, os investimentos em novas unidades, a modernização dos navios existentes, os índices de segurança, a formação dos profissionais, a participação de fornecedores brasileiros e a competitividade nas futuras contratações.
Se os ganhos de escala forem transformados em eficiência, inovação, segurança, conteúdo nacional e qualificação profissional, a OceanPact CBO poderá contribuir de forma relevante para o crescimento do offshore brasileiro.
A oportunidade foi criada. Agora será preciso acompanhar como ela será transformada em resultados para os clientes, trabalhadores, fornecedores, acionistas e para o país.
Fontes
OceanPact — anúncio da combinação de negócios:
https://oceanpact.com/oceanpact-e-cbo-anunciam-combinacao-de-negocios/
OceanPact — conclusão da combinação:
https://oceanpact.com/oceanpact-cbo-combinacao-de-negocios-amplia-a-capacidade-de-atuacao-e-fortalece-a-lideranca-no-setor-maritimo/
OceanPact CBO — composição da frota:
https://oceanpact.com/unidades/oceanpact-cbo/
Relações com Investidores da OceanPact — documentos entregues à CVM:
https://ri.oceanpact.com/informacoes-financeiras/documentos-entregues-a-cvm/
Sobre o autor

Diretor de criação
Thelmo Tonini, conhecido como “Amerikano”, é criador do Mundo Offshore e uma das principais vozes da indústria de petróleo e energia no Brasil. Com milhões de visualizações nas redes, transforma temas complexos do setor em conteúdos acessíveis, diretos e impactantes, conectando profissionais, empresas e curiosos sobre o universo offshore..
